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Burnout autista e a longa jornada de volta para casa

Burnout autista e a longa jornada de volta para casa — Canal Autismo / Revista Autismo

Imagem: Leticia Gomes/Reprodução

Tempo de Leitura: 4 minutos

Encontrei um amigo no mercado há algumas semanas. Na última vez que havíamos nos falado, ele estava investigando a possibilidade de ser autista. “Recebi o diagnóstico”, ele me disse assim que tirei os fones de ouvido. “Como você está se sentindo?”, perguntei. “Cansado”, respondeu.

Eu quase ri, consegui me segurar, mas talvez tenha escapado um fiapo de sorriso. Obviamente não queria rir dele, mas de perceber como essa parece ser uma experiência universal entre nós, autistas: o cansaço. E se hoje vivemos todos em uma sociedade do cansaço, como disse Byung-Chul Han, o cansaço que esmaga autistas parece ter suas particularidades ‒ uma vivência específica que parece tão pessoal, mas que compartilhamos tão profundamente entre nós. Quando ouvi a resposta de meu amigo, eu sabia de que cansaço ele estava falando, sem que ele precisasse elaborar mais. 

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Ao mesmo tempo, é algo que pode ser muito difícil para pessoas não autistas compreenderem, justamente porque todos estamos cansados, exaustos e com diversos problemas de saúde mental por vivermos em uma sociedade cada vez mais individualista e que não nos garante tempo para a contemplação, para o cuidado com nós mesmos e com o outro, que nos coloca uns contra os outros em disputas onde todos saímos perdendo. E, ainda assim, nós, autistas, percebemos que temos um tipo diferente de cansaço.

Esse cansaço começa muito cedo em nossas vidas, muito antes de termos palavras para nomear o que estamos sentindo. Estamos sempre correndo atrás de um mundo que se move rápido demais para nós. Às vezes quase o alcançamos – tiramos boas notas, parecemos ter boas relações sociais, conseguimos compreender as instruções que nos são passadas, e então nos dão tapinhas nas costas: “Muito bem, muito bem”, eles dizem, e não percebem que assim que eles se vão, assim que o período escolar termina, que voltamos para casa depois de uma festa, nosso corpo desaba, esgotado, como se tivéssemos gastado todos os nossos recursos apenas para dar conta da rotina do dia a dia.

E, no dia seguinte, começa tudo de novo. Mas os recursos já foram gastos, embora as pessoas ao redor não percebam. O que parecem conversas banais para outras pessoas, para nós soam como trovões, como golpes vindos de todas as direções e contra os quais não conseguimos nos defender, como uma torrente de informações sendo empurrada, exigindo que nosso cérebro processe, compreenda e dê uma resposta às demandas que estão sendo feitas sobre nós. Nossa mente só consegue responder: “Pare, pare, eu não consigo mais, eu não dou conta”. Mas, o que os outros veem são os gritos, as explosões de humor, as respostas mal-educadas, as agressões, as fugas, o isolamento.

Somos seres de histórias, nossa identidade é construída das narrativas que contamos para nós mesmos. Mas, aprendemos a contá-las a partir das nossas relações, de conversas, da forma como apresentam o mundo para nós. Nessas interações, começamos a apreender os elementos, as palavras, as possibilidades que podemos utilizar em nossas próprias histórias.

O problema é que crescemos sem as palavras para descrever essas sobrecargas sensoriais, sem histórias que falassem de como é difícil acompanhar um mundo que está sempre se movimentando rápido demais, sem personagens que nos houvessem apresentado possibilidades de lidar com esses desafios.

Outras palavras nos foram dadas: preguiçoso, burro, desleixado, mal-educado, antipático, agressivo, esquisito, aberração, alienígena, difícil de entender, difícil de conviver, difícil de amar. São essas palavras que devoramos e que ficam costuradas sob nossa pele, que usamos para definir quem somos, que nos destroem a cada dia.

Nosso cansaço se transforma em burnout após anos, décadas, vivendo em um mundo que não faz sentido para nós e que não se esforça para nos entender.

É possível se recuperar desse burnout?

É o que venho me perguntando há alguns anos, desde que me descobri autista. Cheguei à conclusão de que “recuperação” talvez não seja a melhor palavra: esse desgaste esteve presente em toda a minha história, em todo o meu desenvolvimento, enão tenho como arrancar seus efeitos de mim como se fossem um vírus.

Mas, talvez, eu possa construir uma versão de mim que consiga lidar com essas dores, que não negue as enormes cicatrizes psíquicas que afetam meus movimentos, minhas habilidades, meus comportamentos, minha personalidade, mas que encontre formas de ser feliz nesse corpo cansado, exausto, …dilacerado.

E isso começa pelas palavras. Pelas histórias que conto a mim mesma. Não é fácil, porque são histórias que as outras pessoas – e mesmo eu – muitas vezes não querem ouvir: que eu tenho o direito de descansar, que eu não preciso dar conta de tudo. Que eu não preciso aprender a ser “sociável”, mas eu posso aprender quais relações me fazem bem e quais não fazem.

Começa por aprender a dizer não, e a dizer não para as coisas certas: eu não preciso atender às expectativas alheias, eu posso dizer não mesmo para coisas que eu queria muito, mas que eu entendo que vão ter um custo muito alto para mim em termos de sobrecarga e cansaço.

O mais difícil é que é uma história que eu ainda não conheço: estou construindo com pedaços aqui e ali, ouvindo outros autistas, refletindo, tateando, explorando, e errando, errando muito. Um rascunho de algo que ainda não sei bem o que é, mas que está aos poucos me ajudando a me levantar, a manter a ideação suicida cada vez menor, cada vez mais quieta, a construir planos para um futuro que até há pouco tempo me parecia tão improvável quanto uma viagem para Marte. 

E compartilho, conto, ao redor de fogueiras imaginárias, para meus irmãos e irmãs, para que possamos criar nossas próprias histórias, nossos próprios personagens. Para construir um mundo em que possamos mais do que apenas sobreviver, florescer.

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