1 de março de 2025

Tempo de Leitura: 3 minutos

Receber um diagnóstico de autismo na vida adulta pode ser um momento divisor de águas. Para muitos, essa descoberta vem acompanhada de alívio e autocompreensão; para outros, é acompanhada de frustração, dúvida e até resistência. Este artigo explora como o diagnóstico tardio impacta a vida de adultos, destacando seus desafios, benefícios e a importância de um diagnóstico cuidadoso e preciso.

Impacto inicial

Descobrir-se no espectro autista na vida adulta pode ser emocionalmente desafiador. Muitos pacientes enfrentam um turbilhão de emoções ao ouvir, pela primeira vez, a frase: “Você está no espectro autista”.

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  • Dúvida e questionamento: alguns pacientes, ao receber o diagnóstico, me perguntam repetidamente: “Você tem certeza? Como pode ser isso agora, depois de tanto tempo?”. A dúvida inicial é comum, especialmente em pessoas que construíram suas identidades sem considerar a possibilidade do autismo.
  • Silêncio reflexivo: outros pacientes permanecem em silêncio durante o restante da consulta, processando internamente o impacto da nova informação. O silêncio, muitas vezes, reflete a profundidade dessa descoberta e a necessidade de tempo para assimilá-la.
  • Resistência inicial: alguns pacientes, porém, reagem com revolta, direcionando sua frustração ao médico (a mim, neste caso!) ou a si mesmos. “Por que ninguém percebeu isso antes?”, é uma pergunta recorrente que expressa a mistura de surpresa e inconformismo.

Apesar dessas reações iniciais, a maioria das pessoas relata posteriormente que o diagnóstico trouxe clareza e um senso de identidade e autoconhecimento. Como um paciente me disse, meses depois: “Foi como encontrar uma peça que sempre faltou no meu quebra-cabeça. Agora tudo faz sentido”, fazendo alusão ao símbolo do autismo.

Também há benefícios

Além de dar sentido a experiências passadas, o diagnóstico de autismo na vida adultos abre portas para transformações significativas na vida do paciente:

  • Acesso a direitos e suporte: o diagnóstico permite que as pessoas tenham acesso a terapias específicas, ajustes no ambiente de trabalho e, em alguns casos, benefícios como o BPC..
  • Autocompreensão e autoestima: entender as próprias características ajuda a pessoa a se aceitar e a lidar melhor com seus desafios, fortalecendo sua autoestima.
  • Redes de apoio: muitos adultos diagnosticados encontram conforto em comunidades neurodivergentes, onde podem compartilhar experiências e construir relacionamentos baseados na aceitação mútua.

Limitações do diagnóstico

O diagnóstico de autismo é essencialmente clínico, baseado em critérios comportamentais e relatos históricos, o que gera desafios específicos:

  • Critérios passíveis de interpretação: os critérios do DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) e da CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) descrevem características comportamentais, mas muitos aspectos do espectro são subjetivos e abertos a interpretações diversas. Isso pode levar a diagnósticos errôneos, especialmente em casos sutis ou em populações subdiagnosticadas, como mulheres e adultos.
  • Ausência de marcadores biológicos: até o momento, não existe um exame objetivo — como ressonância magnética, exames de sangue ou testes genéticos — que confirme o diagnóstico de autismo com um “sim” ou “não”. Isso aumenta a dependência de observações clínicas, que podem variar entre profissionais.
  • Formação insuficiente: muitos profissionais não recebem treinamento adequado para identificar o autismo, especialmente em adultos. Isso pode resultar em diagnósticos apressados ou errados, o que prejudica tanto quem é diagnosticado equivocadamente quanto aqueles que ficam sem um diagnóstico correto.

Diagnóstico diferencial

A avaliação criteriosa é fundamental para distinguir o autismo de outras condições que compartilham características semelhantes. Entre os diagnósticos diferenciais mais comuns estão:

  • Transtorno de personalidade esquizoide (TPE): o isolamento social reflete desinteresse em conexões no TPE, enquanto no autismo, ele é resultado de dificuldades sociais. Além disso, pessoas com TPE não apresentam interesses intensos ou comportamentos repetitivos típicos do autismo.
  • Ansiedade social: no transtorno do espectro do autismo (TEA), as dificuldades sociais decorrem de déficits na compreensão de normas sociais, enquanto na ansiedade social, o medo de julgamento é o principal fator.
  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): comportamentos repetitivos ocorrem em ambos, mas no TOC são impulsionados por obsessões, enquanto no autismo estão mais relacionados à autorregulação (emocional e/ou sensorial).

Outros diagnósticos diferenciais incluem TDAH, transtorno de personalidade borderline e transtornos de humor. A experiência clínica e o uso de ferramentas diagnósticas específicas são essenciais para garantir precisão.

Uso indevido

Infelizmente, o aumento da conscientização sobre o autismo também trouxe casos de uso indevido de diagnósticos, seja para acessar benefícios ou por desinformação. Isso prejudica quem realmente precisa de suporte e reforça estigmas.

Regulamentações mais rigorosas e a formação de profissionais especializados são passos necessários para preservar a integridade da comunidade autista.

Diagnósticos transformam vidas

Embora o diagnóstico tardio de autismo possa ser um choque inicial, ele oferece uma oportunidade única para a transformação. Para muitos, é o início de um processo de autoconhecimento que melhora a autoestima, a qualidade de vida e os relacionamentos.

Para os profissionais, diagnosticar adultos no espectro é mais do que um desafio técnico; é uma oportunidade de mudar vidas. Reconhecer as limitações dos critérios diagnósticos e investir em formação adequada são passos fundamentais para garantir diagnósticos mais precisos e justos.

Ao abraçar o diagnóstico, pacientes têm a chance de transformar desafios em forças e de encontrar seu lugar no mundo com mais autenticidade e confiança.

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Médico psiquiatra, com especialização em psiquiatra forense e psicoterapia.

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