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O desafio de ser autista e o peso de não corresponder às expectativas da sociedade

O desafio de ser autista e o peso de não corresponder às expectativas da sociedade — Canal Autismo / Revista Autismo
Tempo de Leitura: 2 minutos

Durante o ensino médio, um dos meus maiores hiperfocos eram as aulas de Filosofia e Sociologia. Não apenas porque eu tinha aptidão por ambas as disciplinas da área de Humanas, mas também porque a busca por entender as razões do comportamento humano foi um dos fatores que me ajudaram a compreender o meu diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Principalmente, me libertar do mito de que havia algo em mim que justificasse a postura hostil dos meus colegas de classe. Afinal, por que sempre me rejeitavam, mesmo sem que eu lhes fizesse mal algum?

Uma das lições mais marcantes que aprendi com o professor Francisco foi sobre o pensamento do sociólogo Émile Durkheim: “Antes de nascermos, a sociedade já estava pronta.”

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E não é que o pensador francês tinha razão? O diagnóstico de autismo trouxe um alívio para quem passou a vida tentando se encaixar nos padrões socialmente aceitos por meio do masking — algo bastante comum entre nós, autistas — sem perceber o quanto isso era prejudicial para a saúde mental.

Ao mesmo tempo, crescer como uma pessoa com TEA em um país continental e, ao mesmo tempo, tão desigual em oportunidades para pessoas atípicas é um desafio imenso, especialmente para quem recebe o diagnóstico tardiamente, como foi o meu caso. O autismo não desaparece quando deixamos de ser crianças. Pelo contrário, as transformações intensas da adolescência e da vida adulta, tanto no corpo quanto no emocional, afetam diretamente a saúde mental do autista.

Vivemos em um país que, felizmente, avançou na última década na conquista dos direitos das pessoas atípicas, refletindo no aumento de diagnósticos e na conscientização sobre o TEA. No entanto, ainda há uma grande contradição entre o discurso e a prática. No dia 2 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, ouvimos inúmeras promessas de inclusão. Mas, no restante do ano, essas promessas são frequentemente esquecidas.

O resultado dessa realidade é a infantilização do autismo. Não são raros os casos de autistas que têm direitos básicos negados, como acesso a terapias pelo Sistema Único de Saúde (SUS), matrículas em escolas, oportunidades de emprego e até mesmo acesso a programas de transferência de renda. Tudo isso porque a sociedade acredita que autistas de menor nível de suporte não precisam de atenção.

Mais uma vez, nos aproximamos do dia 2 de abril. E, se o autismo é um espectro, será que negar direitos a uma parcela da comunidade autista é realmente inclusão ou apenas um discurso conveniente? Questionar essa realidade não é fácil, ainda mais quando se enfrenta interesses financeiros e políticos de grupos que priorizam o próprio sucesso em detrimento do bem-estar coletivo da população atípica no Brasil.

Por isso, é fundamental que cada vez mais autistas utilizem seu espaço de fala para manifestar suas opiniões e sugerir políticas públicas que atendam à maioria da população neurodivergente, historicamente negligenciada pelo Estado brasileiro. A inclusão só será verdadeira quando houver oportunidades iguais para todos — e não apenas para alguns, como muitos insistem em afirmar.

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