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Popularização do autismo nas redes acende alerta para o diagnóstico diferencial, um desafio no atendimento
A conscientização sobre o autismo tem crescido significativamente nas últimas décadas, impulsionada por campanhas educativas, movimentos sociais, maior destaque nos meios de comunicação e pela mudança dos critérios diagnósticos do transtorno nos manuais médicos. Como consequência, cada vez mais adultos têm se descoberto autistas. Diagnósticos tardios tornaram-se mais frequentes à medida que profissionais de saúde e a sociedade em geral passaram a reconhecer que o autismo não se limita à infância e pode se manifestar de formas menos óbvias ao longo da vida.
A sutileza do autismo na vida adulta aponta para um processo de diagnóstico mais complexo em comparação ao infantil. Entre as questões envolvidas nessa dificuldade de identificação estão o diagnóstico diferencial, as habilidades aprendidas ao longo da vida e a falta de capacitação de profissionais no setor privado e público.
O desafio do diagnóstico
O ativista Hugo Braz é moderador da Rede Gaúcha Pró-Autismo, avô de autista e descobriu recentemente que um de seus filhos também é autista. A necessidade de investigação surgiu durante a pandemia, quando seu filho cursava uma graduação em Física e enfrentava dificuldades com ansiedade, o que motivou a procura de um neurologista. “Foi um desastre total. Ele perguntou para o neurologista sobre a dificuldade de entender os sentimentos das pessoas. O médico disse que ele era incapaz de sentir. Ele saiu dessa consulta extremamente doído, mal-entendido”, disse Hugo em entrevista à Revista Autismo.
Uma resposta mais consistente veio com um neuropediatra que, mesmo tendo maior experiência com casos infantis, conduziu um processo de investigação de autismo na vida adulta. Para Hugo, autistas adultos com cognitivo e linguagem preservados podem passar por desconfortos em avaliações médicas ou até mesmo receber diagnósticos errados, como o de esquizofrenia.
Em adultos, o diagnóstico diferencial se torna um desafio para profissionais. O médico psiquiatra Thiago Cabral afirma que condições como transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade borderline e especialmente o transtorno de personalidade esquizoide são comuns de serem confundidos com o autismo. Para ele, o importante é observar as características exclusivas do espectro autista. “Todo autista é literal, tem muita dificuldade com piadas, ironias, sarcasmos. Com o tempo, ele aprende. Muitos estudam isso, mas todos têm. As hipersensibilidades também. E a inflexibilidade com rotina. Todo autista tem. E essas características que todo autista tem, não tem nas outras. Não tem no borderline, não tem no esquizoide”, conta.
Mas o que garante um bom diagnóstico? Segundo o psiquiatra, é a prática do profissional. “Se o profissional é bom, é capacitado, ele faz o diagnóstico rápido. Se o profissional não é experiente com autismo, realmente é um diagnóstico difícil. O diagnóstico é essencialmente clínico, do médico. Mas a avaliação neuropsicológica ajuda muito no diagnóstico, pra você entender como é que o cérebro está, como funciona. Mas o principal é a prática do profissional”, afirma Thiago Cabral.
E as redes sociais?
Ao observar o crescimento de conteúdos sobre autismo na internet, pesquisadores em estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders investigaram a qualidade dos materiais divulgados no TikTok e descobriram que 41% dos vídeos de maior alcance eram imprecisos e 32% tinham generalizações. Da mesma forma, parte da popularização do autismo enquanto diagnóstico levanta debates na comunidade sobre o quanto as redes ajudam ou atrapalham na compreensão da condição.
Rauana Batalha é servidora pública da Universidade Federal do Acre (Ufac), mãe e também autista. Ao longo de uma década, percebeu como o autismo ganhou espaço dentro da universidade, especialmente pelas matrículas de autistas adultos em diferentes cursos. Em relação às redes, ela conta que não percebe muitos conteúdos de desinformação. “Quando tem, é por parte dos pais, por incrível que pareça”, destaca.
Ela, que já produziu iniciativas sobre autismo na universidade, ao mesmo tempo que tem sua filha atendida na Associação Família Azul, fundada em 2011, possui um grupo no WhatsApp, de autistas adultos do Acre, com mais de 80 pessoas. “Eu não vejo ainda banalização. Pelo contrário, eu vejo é muito diagnóstico errado, um laudo de TDAH, de transtorno de ansiedade generalizada. 50% ou mais das pessoas que estão lá no nosso grupo, por exemplo, já tiveram outros diagnósticos, tomava medicação errada, não tinha qualidade de vida. Aí, outro profissional que viu. Então, aqui no estado, eu acho que isso reflete muito”, conta Rauana.
Thiago Cabral, por sua vez, faz um balanço sobre o conteúdo de autismo nas redes. “Tem bastante informação de qualidade. Mas a maioria é sem qualidade. Eu acho que o aumento da visibilidade é positivo. Mas a desinformação também é uma preocupação. Muitas vezes, as redes sociais simplificam e romantizam o autismo, o que pode levar a interpretações erradas. Então, é importante que profissionais de saúde e instituições compartilhem informações para contrabalancear”, argumenta.
Por avaliações adequadas
Na perspectiva de Hugo, um dos desafios está em relação ao acesso a atendimento de autistas na vida adulta no Sistema Único de Saúde (SUS). “Os casos que eu tenho visto de adultos é que [eles] procuram médicos particulares. Justamente porque parte por indicação”, conta.
Rauana também revelou que, de todos os autistas que conhece no estado, nenhum recebeu o diagnóstico na rede pública. “Essa investigação, principalmente da adolescência em diante, é muito difícil aqui no estado pelo SUS. Você só consegue se for pago. No nosso grupo de WhatsApp, por exemplo, de autistas adultos, todos conseguiram o diagnóstico pagando, não tem ninguém que veio do SUS”, compartilha.
No contexto da universidade, Rauana observa que ocorreram desafios nos primeiros casos de alunos autistas em relação à perícia. Atualmente, segundo ela, há uma quantidade significativa de estudantes autistas no curso de Medicina, o que levantou discussões sobre acesso ao diagnóstico. “Eles questionavam que a maioria das pessoas daqui vinham com avaliação neuropsicológica e o laudo, e as pessoas que vinham de fora só tinham laudo. Então, causava uma certa desconfiança, por isso que, às vezes, eles interferiam, para que a pessoa trouxesse mais documentos para realmente comprovar”, disse.
Ao mesmo tempo que a avaliação neuropsicológica seja relevante para uma hipótese de autismo, Thiago Cabral afirma que nem sempre elas podem ser precisas. “Eu já peguei a avaliação neuropsicológica que falava que era TEA e não era, assim como eu já peguei que fala que não era e era”, pontua. Em relação ao acesso, ele também argumenta que o custo das avaliações é um fator relevante. “Uma avaliação neuropsicológica é mil reais. No SUS, a criança até consegue, porque tem o CAPS infantil, mas o adulto, não tem tanto profissional capacitado”, lamentou.
O psiquiatra considera o cenário desafiador, sobretudo porque muitos médicos nunca acompanharam casos de autismo na vida adulta durante suas residências. Ele também desconhece bons exemplos na rede pública. “O principal seria o treinamento dos profissionais para esse diagnóstico. O autista adulto camufla sintomas.” Ele também acredita que, conforme a sociedade toma mais conhecimento sobre autismo, mais casos podem chegar aos profissionais. “Quando eu passei na psiquiatria da infância e adolescência, vi bastante autista criança, mas autista adulto, passei minha residência inteira e não vi nenhum. Foi atendendo e estudando, que eu fui aprendendo a fazer o diagnóstico”, disse.